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Quinta, 04 Junho 2015 19:35

A Rua dos Teatros

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A vida noturna carioca, assim como em outras metrópoles modernas, se encontra dispersa por várias localidades, conseqüência do processo de crescimento e expansão experimentado pelas cidades. Contudo, em épocas passadas, muitas das casas de espetáculo tendiam a se concentrar em uma região, em função da clientela ou tradição, na esperança de garantir sua bilheteria. A partir do século XIX, e por um largo período, a área com maior número de teatros foi a Praça Tiradentes, o antigo Rossio, acompanhando o pioneiro Teatro São Pedro, de 1813.
 

Durante o nascimento e urbanização da conhecida praça, que era uma grande área entre terrenos alagados e chácaras, é aberta em 1801 uma nova rua, em terras da primitiva sesmaria que no século XVIII pertencia ao guarda-mor Pedro Dias Pais Leme. Ligando a Rua do Senado (iniciada em 1789) à Praça Tiradentes, a Rua do Espírito Santo se tornaria um dos endereços mais conhecidos na vida artística do Rio de Janeiro, nas décadas seguintes e até o século XX.

 

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A Rua do Espírito Santo, hoje Pedro I, no início do século passado. À direita pode
ser visto o imóvel onde seria construído o atual Teatro Carlos Gomes, e ao 
fundo o teto do Teatro Recreio Dramático.

Em 1877, inaugurava-se o Teatro Varietés, chamado no ano seguinte de Teatro Variedades, depois Brasilian Garden e por fim, em 1880, Teatro Recreio Dramático, abreviado para Teatro Recreio. Localizava-se no final da rua, em um trecho sem saída, com os fundos dando para a encosta do morro de Santo Antônio. De capacidade média, era muito popular, tendo recebido até mesmo o imperador D. Pedro II em 1884. Fechou suas portas em 1969, após quase cem anos de existência. Outro bastante conhecido foi o Lucinda, de 1880, onde foram representadas peças de autores famosos, como Arthur Azevedo. Esta antiga casa de espetáculos também foi palco de acontecimentos políticos relevantes, quando, em abril de 1906, sediou o Iº Congresso Operário Brasileiro, que decidiu pela criação da Confederação Operária Brasileira e a deflagração da greve geral em 1º de maio de 1907.
 

Uma das figuras mais conhecidas da vida artística carioca nesta época foi Pascoal Segreto, cuja empresa arrendou o Teatro Carlos Gomes, o São José e o Maison Moderne, em frente ao Carlos Gomes, do outro lado da rua e fazendo lado com a praça. Em seus jardins Segreto fez instalar um parque de diversões com brinquedos, palhaços, mágicos e bandas de música, que tocavam maxixes e tangos, para atrair o público para suas peças. Em 1912, estreava no São José a peça Forrobodó, de Luiz Peixoto e Carlos Bittencourt, com música de Chiquinha Gonzaga, a mais famosa moradora desta rua, uma presença constante em seus teatros. Viveu e faleceu em seu apartamento, na véspera do carnaval de 1935.

 

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Cinema High-Life, em 1913. Ficava do outro lado da rua, em frente a onde está
o atual Teatro Carlos Gomes. É o mesmo local onde antes funcionava a

Maison Moderne. Ao lado do cinema ficava o bar, onde os cinéfilos
podiam 
matar sua sede com um refrescante chopp. 
 

A Rua do Espírito Santo, tão ligada às artes cênicas e à música, passaria em 1921 a se chamar Pedro I, após ter o nome de Luís Gama durante um período. O último teatro remanescente desta era, o Carlos Gomes, nasceu em 1872 como Teatro Cassino Franco-Brésilien, passou por três incêndios, e continua sua trajetória de quase 140 anos em pleno século XXI, como símbolo renascido da arte brasileira, eternamente persistindo e se reinventando.

Domingo, 22 Março 2015 20:26

A Vala

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Nem sempre firme e seco foi o chão que os cariocas pisaram, muito pelo contrário. Nos primeiros tempos, a maior parte do terreno era formada por charcos e mangues, com pouca área útil. O esforço de gerações criou uma faixa habitável, indo da Praça XV em direção ao interior. Quanto mais se adentrava, mais húmido o terreno ficava, até encontrar um obstáculo que, durante muito tempo, marcou os limites da cidade. Tal fronteira era chamada de Vala.
 

Este tataravô dos esgotos a céu aberto e das valas modernas não foi obra natural, ao contrário, foi feito pelo homem, originalmente com intenção de drenar a lagoa que existia onde é o Largo da Carioca. Construída em 1641, seguia até a Prainha (Praça Mauá), em um trajeto incluindo as ruas Uruguaiana e do Acre. Após as invasões francesas de 1710 e 1711, erigiu-se um muro no local, como defesa frente a futuras invasões, como um anel circundando a parte mais vulnerável do antigo Rio. O governador Luís Vaía Monteiro, O Onça, ardoroso defensor do muro, foi, contudo derrotado pelos que defendiam sua demolição, favorecendo a expansão urbana. O muro caiu, restando só a velha Vala.

 

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Rua Uruguaiana, logo após as reformas do começo do século passado.
Em seu subsolo correm hoje os carros da linha 1 do metrô, no mesmo
local por onde passava a vala aberta no século XVII.


Apesar de histórica, a Vala não era um local exatamente bucólico ou romântico. Todo tipo de detrito era lá jogado, como esgoto, lixo e animais mortos. O fedor era insuportável. Assim ficou até o governo do Conde da Cunha (1763-1767) quando, à noite, ao voltar de uma aventura amorosa, um de seus auxiliares caiu dentro da imunda Vala. O casanova se queixou ao Vice-Rei, que, ato contínuo, mandou tapá-la com pesadas lajes de pedra. Por conta deste incidente é que se deve a transformação do antigo esgoto na Rua da Vala, incorporando uma nova área à cidade e saneando o local.
 

No século XIX, lá se instalaria em 1857 o Alcazar Lírico, uma espécie de teatro de vedetes, que iria transformar completamente a vida noturna da cidade. Suas estrelas, como Aimée e Suzana Castera, levavam os homens à loucura, com freqüentes brigas e escândalos. Era a perdição de muitos jovens, que dissipavam a fortuna da família em troca dos favores de suas musas. Depois do Alcazar, o Rio passou a ter uma vida de metrópole, com todos seus atrativos noturnos.
 

Rebatizada em 1865 como Rua Uruguaiana, em homenagem à vitória brasileira na Guerra do Paraguai, a antiga Vala conta muito da história de uma cidade em vias de se transformar em uma das maiores e mais belas metrópoles do mundo.

Sexta, 16 Janeiro 2015 18:02

O Matadouro

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Foi manchete recente no noticiário a descoberta de vestígios do passado da cidade, revelados pelas escavações para a implantação do VLT no centro, ao longo da Av. Rio Branco. O destaque ficou com um calçamento pé-de-moleque, em frente à Praça Mahatma Ghandi, no quarteirão entre as ruas Santa Luzia e Presidente Wilson.

 

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O calçamento pé-de-moleque em frente à Praça Mahatma Gandhi.
(Foto Paulo Pacini)

Em uma cidade tão antiga quanto o Rio, trabalhos desse tipo sempre oferecem uma rara oportunidade para vislumbrarmos outros tempos, sepultados sob várias camadas de solo. Os achados podem possibilitar a obtenção de pontos de referência, os quais, junto com testemunhos fotográficos e outros, mostram o processo de evolução urbana de uma localidade em particular.
 

Próximo ao trecho onde fica o dito calçamento esteve localizado, durante quase 80 anos, o matadouro da cidade, conhecido então como matadouro de Santa Luzia. Sua instalação ocorreu em 1777, durante a gestão do vice-rei Marquês do Lavradio, que realizou a obra atendendo a pedidos de vereadores. Até então, o gado era abatido fora da cidade e cortado no açougue velho, que ficava na esquina do Beco do Cotovelo com Rua da Misericórdia, no desaparecido bairro aos pés do Morro do Castelo. As últimas casas da Misericórdia foram demolidas em 1953.

 

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Trecho com rocha na Cinelândia sendo dinamitado para a abertura da Avenida
Central, hoje Rio Branco. Ao fundo, o Convento da Ajuda, e mais atrás, o Pão
de açúcar.
(Revista Eu Sei Tudo, 1923)

O matadouro estava próximo ao ponto onde ficava o Palácio Monroe, sendo a área conhecida então como Campo da Ajuda, nome dado pela presença do Convento da Ajuda, que abrangia toda a Cinelândia e cuja entrada ficava próxima ao cine Odeon. Funcionou ali até 1853, quando foi inaugurado outro matadouro maior que ficava na antiga Chácara do Cortume, hoje Praça da Bandeira. Pode parecer incompreensível colocar uma instalação desse tipo em pleno centro urbano, mas devemos lembrar que no distante século XVIII ainda não se sonhava com a refrigeração, uma invenção que só aconteceria 150 anos depois. Portanto, a conservação da carne era dificílima, sendo necessário transcorrer o menor tempo possível entre abate e consumo. O matadouro, por mais desagradável e incômodo que possa ter sido, cumpriu papel fundamental no abastecimento do Rio de antigamente, onde as pessoas necessitavam se alimentar da mesma forma que hoje em dia.
 

Outro possível ponto revelado pelas escavações fica próximo à Biblioteca Nacional e ao Centro Cultural da Justiça Federal. Nesse local, o Morro do Castelo possuía uma aba que se estendia até a Cinelândia, estreitando o espaço e dividindo a área da Cinelândia atual em duas: próximo à Rua da Guarda Velha (13 de Maio) ficava o Largo da Mãe do Bispo, e, junto a onde estava o Monroe, o Campo da Ajuda. Quando da abertura da Av. Central (Rio Branco), os trabalhos se depararam com uma formação rochosa, e, para não perder tempo com o desmonte, foram utilizados explosivos para remover a rocha. Nada poderia atrasar o cronograma.
 

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A bela Rua da Ajuda em foto de Malta de 1904


A abertura da Avenida também iria fazer com que desaparecesse quase por completo uma das ruas mais conhecidas de antigamente, a Rua da Ajuda, da qual só resta um pequeno trecho que começa junto ao antigo prédio do Banerj. Considerada uma das mais belas da cidade, teve como um dos residentes mais conhecidos o pintor Debret, da missão artística francesa. Lá também ficava o teatro Fênix Dramática, no jardim do Hotel Brisson, bastante frequentado. As escavações entre o trecho remanescente da Rua da Ajuda e o Museu Nacional de Belas Artes permitem ver prováveis vestígios das casas, com arranjos irregulares de pedras e também alguns tijolos.
 

A instalação do VLT é uma obra bem-vinda, e esperemos que o projeto possa ser concluído, o qual trará com certeza uma melhoria à qualidade de vida de todos que frequentam o centro do Rio. A revelação de traços do passado da cidade é um efeito secundário interessante, e seria oportuna a realização uma exposição sobre os achados, localizando-os no passado, e mostrando como a cidade mudou. São fatos que interessam à maioria, e seu conhecimento certamente irá ajudar a uma melhor compreensão da história, dessa forma valorizando e ajudando a preservar o patrimônio ainda existente.

Terça, 02 Dezembro 2014 13:39

Ourives e Ladrões

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Nos primeiros tempos da colônia, a riqueza do Brasil era extraída a duras penas, através da produção de açúcar e do pau-brasil, obtido das abundantes matas nativas. A pilhagem, contudo, nunca bastava, em função da situação permanentemente deficitária de Portugal em relação à Inglaterra, proporcionada pelo acordo de Methuen, de 1703. A descoberta do ouro em Minas no século XVIII alvoroçou a Metrópole, e a ganância da coroa pela posse da inesperada riqueza atingiu níveis sem precedentes.
 

Como todo ladrão, que sempre acha que estão a roubá-lo, o governo real adotou medidas de segurança para garantir que o ouro brasileiro chegasse são e salvo à côrte, cerceando a obtenção e manipulação do precioso metal. Nesse sentido, o governador Gomes Freire determina que, a partir de 1742, todos ourives e joalheiros do Rio deveriam se instalar no chamado "Caminho da Conceição para o Parto", uma rua que ia do começo da ladeira que levava à capela no alto do morro da Conceição até a Capela de N.Sª do Parto, próxima à rua São José, hoje em dia no interior de um espigão na rua Rodrigo Silva. Nesse endereço os ourives podiam ser vigiados de perto.

 

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Aspecto da Rua dos Ourives, mais de cem anos atrás. Chamada hoje 
de Miguel Couto, ainda possui trechos conservados perto do
Largo de Santa Rita (foto revista Eu Sei Tudo, 1923)

A concentração de profissionais na rua ocasionou a mudança de seu nome, doravante chamada Rua dos Ourives. Algum tempo depois, quando Portugal decidiu acabar com todas as atividades industriais da colônia, os ourives se viram obrigados a procurar outras opções de sobrevivência. Tal só mudaria em 1808, com a chegada da côrte. Daí em diante, a maioria das ourivesarias e joalherias se instalaria nesse local.
 

Esta antiga rua iria sofrer o primeiro golpe quando da abertura da Av. Central, que a dividiu em duas, e separou o início do trecho final, próximo à rua São José. A maior parte, contudo, desapareceria quando da abertura da Av. Presidente Vargas, em 1943, obra nefasta a destruir metade do centro da cidade, incluindo vários monumentos históricos de valor. Nesta época, a Rua dos Ourives já se chamava Miguel Couto, nome adotado em 1936. Testemunhas afirmam que, junto com o trecho derrubado, também desapareceu um setor do comércio, especializado em ferramentas de qualidade, relacionadas com a ourivesaria.
 

Pouco resta da antiga Rua dos Ourives, lembrança dos tempos das iniqüidades da coroa portuguesa, como os impostos e a derrama, que acabariam por levar à Inconfidência, prenúncio da libertação final do país em 1822.

Segunda, 06 Outubro 2014 19:31

VISITA GUIADA A SANTA TERESA

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Prezados amigos, estou reiniciando meus roteiros de passeios históricos pelo Rio de Janeiro, agora como guia de turismo. Será realizada no sábado próximo uma Visita Guiada a Santa Teresa, onde serão apresentados diversos fatos históricos sobre esse bairro tão conhecido e simpático de nossa cidade. O ponto de encontro é em frente ao Teatro Municipal às 9:30 do dia 11/10/2014 e o preço por pessoa é de R$20. Segue abaixo uma divulgação do evento. Um abraço a todos e até sábado!

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Terça, 02 Setembro 2014 15:00

Grande Hotel Internacional

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Em 1851, chegava ao porto do Rio um visitante indesejável, que acabou fixando residência por aqui: o cólera-morbo. A terrível doença, em uma época de limitados recursos médicos, causaria inúmeras vítimas fatais, com ataques epidêmicos se repetindo durante muito tempo.
 

O conhecimento de então sobre doenças e suas causas ainda não incluía o conceito de vida microbiológica, e muito menos o de vetor, se apoiando antes em preconceitos e princípios arbitrários. Assim, era comum se associar doenças a "miasmas maléficos", emanações invisíveis oriundas da terra, vegetais ou animais em decomposição. O conhecimento científico precário também foi terreno fértil para o desenvolvimento de uma série de atitudes preconceituosas, como a idéia de que moradias de pessoas menos favorecidas, em geral habitações coletivas, eram focos de doenças, argumento que seria usado repetidas vezes para justificar as inúmeras demolições ocorridas desde o início do século passado durantes as chamadas "reformas urbanas".
 

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Hotel Internacional, na antiga Rua do Aqueduto, hoje Almirante Alexandrino. Foi
um dos hotéis de maior prestígio do Rio antigo. (imagem cortesia Allen Morrison)


Com tantas ameaças, o carioca se inquietava com relação a sua saúde e bem estar, e como no século XIX ser contagiado equivalia quase sempre a morrer, tratou de procurar prevenir e evitar a qualquer custo que tal ocorresse. Uma das iniciativas mais comuns, para quem podia, era fugir da aglomeração do centro da cidade, rumo a bairros mais salubres, com melhores condições de higiene e ar mais puro.
 

Um dos locais que mais se desenvolveria por conta do movimento centrífugo em relação ao centro da cidade seria justamente o morro de Santa Teresa. Já na década de 1850 eram feitos os primeiros loteamentos de chácaras antigas, como a de Fonseca Guimarães, que daria origem à região do Largo do Guimarães e arredores. Daí em diante, o bairro cresceu cada vez mais, mas não só com a construção de moradias familiares, mas também com o que poderíamos chamar de moradias temporárias: os hotéis.
 

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Panorama do Hotel Internacional, mostrando o vale de Laranjeiras, Pão de Açúcar,
e praias distantes na época, como Itaipú. (imagem cortesia Allen Morrison)


Impulsionado pela busca de ares mais salutares, o setor hoteleiro de Santa Teresa prosperou durante a segunda metade do século XIX e início do século passado. Um dos hotéis mais antigos, o Santa Teresa, originalmente sede da chácara de Fonseca Guimarães, continua funcionado até os dias de hoje. Outros hotéis, muito freqüentados durante o século XIX e que marcaram uma época, hoje já não existem, como o Hotel Vista Alegre, e o então famoso Grande Hotel Internacional.
 

Originalmente construído para ser um sanatório de doenças do pulmão, o Grande Hotel Internacional foi convertido em hotel em 1892. Situava-se na rua do Aqueduto 76, onde é hoje o Condomínio Equitativa, acima do Corpo de Bombeiros. Dentre os sofisticados serviços oferecidos, estavam incluídas quadras de tênis e campos de cricket, duas modas inglesas em voga na época. O Grande Hotel Internacional hospedou algumas das maiores celebridades mundiais de então, como a atriz Sarah Bernhardt, a bailarina Isadora Duncan e o bailarino Nijinsky.

 

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Etiqueta de bagagem do Grande Hotel Internacional.
(imagem cortesia Allen Morrison)
 

Durante o século passado, as mudanças urbanas, com o desenvolvimento de outras áreas da cidade e a mudança de hábitos levaram a um retraimento do setor hoteleiro desse tradicional e histórico bairro carioca. Os últimos anos, contudo, têm testemunhado um interesse renovado, mais uma vez surgindo novas opções de hospedagem, agora no gênero dos hostels, para um público mais amplo. Santa Teresa, talvez o único bairro do Rio a não ter sido destruído e descaracterizado pela especulação imobiliária, mostra, com sua vitalidade renovada, que a conservação de espaços urbanos de valor histórico tem muito a oferecer a todos, por possibilitar uma experiência, no presente, de ambientes mais humanos, perdidos na maioria das cidades modernas.

Sexta, 18 Julho 2014 15:48

O Velho Hospital

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O Largo da Carioca, um dos pontos mais conhecidos e históricos de toda cidade, sofreu grandes transformações ao longo do tempo, principalmente durante o último século, até chegar ao estado atual, em que, com exceção da igreja e convento de Santo Antônio, nada do passado subsiste.
 

No começo dos anos 1900, seu aspecto era completamente diferente. O principal marco, o chafariz da Carioca, estava presente e em funcionamento, assim como a Imprensa Nacional e outros prédios históricos, e, dentre estes, destacava-se o Hospital da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência, na esquina com a rua da Carioca.
 
 

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Hospital da Ordem Terceira da Penitência no Largo da Carioca. Construído no
século XVIII, foi demolido em 1906 durante as reformas promovidas pela
pefeitura na gestão Pereira Passos



O venerável prédio, inaugurado em 1763, foi um dos poucos locais a prestar algum tipo de assistência médica, coisa rara nos tempos coloniais. De formato quadrangular, de frente para o Largo, tinha três andares, sendo que os enfermos ocupavam o 2º e 3º pavimentos. O térreo tinha diversas lojas, cuja renda revertia para o funcionamento da instituição. Na parte interna, havia um jardim com várias estátuas, além de duas capelas. O hospital foi de grande valia quando dos grandes surtos epidêmicos, como cólera e febre amarela, que assolavam periodicamente a cidade desde meados do século XIX, abrindo suas portas e prestando assistência aos doentes.
 

Mas o hospital também teve outro uso, menos nobre mas não menos histórico, ao se tornar cárcere para alguns dos membros da Inconfidência Mineira, incluindo o próprio Tiradentes, por ordem do vice-rei Conde de Rezende, que procedia à prisão de todos envolvidos no movimento. Talvez o Conde temesse o contágio dos outros presos pelas idéias dos inconfidentes, optando assim por sua segregação nessa prisão improvisada.
 

A antiga construção passou por várias reformas, internas e externas, mas iria encontrar seu fim em 1906, quando a cidade sofreu grande remodelação. Com o pretexto de realinhar o Largo da Carioca com a recém-reformada rua Uruguaiana, demoliu-se o hospital, então com 150 anos de serviços e de história.
 

Como o Largo da Carioca hoje em dia é só um espaço aberto, não seria fora de propósito a construção no mesmo local de um prédio que abrigasse um museu  e promovesse eventos culturais. A fachada poderia reproduzir a do antigo hospital, para não agredir estéticamente a Igreja e Convento acima. Seria um serviço à cultura e à cidade, custando uma fração do que é desperdiçado em tantas obras faraônicas de valor duvidoso.

Quarta, 04 Junho 2014 17:07

A Imprensa Nacional

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Em 1856, um modesto rapaz finalmente conseguia seu primeiro emprego, de auxiliar de tipógrafo, em uma instituição que, apesar existir há poucas décadas, tinha destacada importância. O recém-empregado era ninguém menos que Machado de Assis, iniciando a vida profissional nas oficinas da Impressão Régia, antecessora da atual Imprensa Nacional.
 

A história deste órgão inicia com a fuga de D. João e a côrte portuguesa para o Brasil, em 1808, que fez uma encomenda de material tipográfico na Inglaterra ter o endereço de entrega mudado de Lisboa para o Rio de Janeiro. Antes desses acontecimentos, a Coroa portuguesa impediu qualquer tentativa de estabelecimento de uma imprensa em terras brasileiras, como quando o governador Gomes Freire instalou uma tipografia, destruída a seguir por ordens reais.

 

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O belo prédio da Imprensa Nacional no Largo da Carioca em estilo neomanuelino,
inaugurado em 1877 e demolido estúpidamente em 1938. Nesse local o
escritor Machado de Assis iniciou sua vida profissional.
 

A primeira sede da Impressão Régia localizou-se no pavimento térreo da casa do Conde da Barca, na rua do Passeio 44, transferindo-se a seguir para rua dos Barbonos (Evaristo da Veiga). Em 1831 estava na Academia de Artes, na av. Passos (demolida), depois na câmara dos deputados, na Misericórdia, para finalmente chegar em 1860 à rua da Guarda Velha (Treze de Maio), no atual Largo da Carioca. Depois da peregrinação por vários endereços alheios, uma sede própria, enfim.
 

O prédio, contudo, era bastante precário, e, em 1874, o Visconde do Rio Branco, Ministro da Fazenda, ordenou a construção de novas instalações no mesmo local. Em 1877 era inaugurado o edifício em estilo neomanuelino, projeto de Paula Freitas, tornando-se o mais recente adorno do antigo Largo da Carioca. Situado próximo ao Chafariz (Largo da Carioca nº1), e antes do Teatro Lírico, mais próximo à atual Almirante Barroso, e em frente ao Liceu de Artes e Ofícios, do outro lado da rua, o majestoso prédio foi durante muitas décadas uma referência no Largo.
 

Um violento incêndio em 1911 fez com que parte do equipamento se dispersasse em outras repartições, mas a sede continuou no mesmo local até 1938, quando foi demolida pelos geniais reformadores urbanos de então, que transformaram o Largo da Carioca em um grande terreno baldio, usado como estacionamento por décadas.
 

A Imprensa Nacional continuou suas atividades na av. Rodrigues Alves, transferindo-se a seguir para Brasília, em 1960. Mas o belo prédio no Largo da Carioca, que ainda poderia existir, deixou uma marca indelével na história visual do Rio antigo.

Quinta, 01 Maio 2014 18:52

O Convento da Ajuda

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A Cinelândia foi, durante muito tempo, o centro da vida noturna da cidade, especialmente no tempo da capital federal. Além de cinemas, o teatro de revista floresceu, lançando artistas de sucesso. Mas suas origens, diferentemente do que se imagina,  não foram nada mundanas, tendo na verdade uma motivação oposta à fama adquirida no século XX.
 

No ano de 1705, a coroa portuguesa finalmente concedia a autorização para a instalação do primeiro convento de freiras da cidade, a ser construído no mesmo local onde, desde o século XVI, existia a ermida de N.Sª da Ajuda, na atual Cinelândia. Era a vitória final da viúva Cecília Barbalho que, em 1678, decidiu recolher-se com suas três filhas e duas meninas. Como não havia nenhuma casa deste tipo na época, ofereceu seus bens a uma instituição que a criasse. A coroa tergiversava, pois preferia que as mulheres se casassem e tivessem filhos, povoando a colônia de tão escassos habitantes.

 

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Convento da Ajuda, construído em 1750 e demolido em 1911, ocupava a maior 
parte da área conhecida hoje como Cinelândia. Ao fundo, o Palácio do Monroe,
sede do antigo Senado Federal, já então construído.


A construção do convento, contudo, só iniciaria em 1745, sob o comando do Brigadeiro Alpoim. Cinco anos depois, em 1750, seria inaugurado com grandes festejos e a presença do governador Gomes Freire. Dedicado a N.Sª da Conceição da Ajuda, teve como fundadoras quatro freiras da Ordem de Santa Clara, enviadas de Salvador, junto com cinqüenta escravas. A área do convento incluía a igreja de N.Sª da Ajuda, que passou a receber os restos mortais da família real, depois da vinda da côrte.
 

Com o passar do tempo, as freiras da Ajuda ficaram conhecidas pelos seus dotes culinários, especialmente os doces, encomendados por ocasião dos mais diversos festejos, principalmente no século XIX. Mas o convento também teve seu lado sombrio, pois era usado como prisão para filhas desobedientes, que não aceitavam o noivo escolhido, e também para esposas que se rebelavam contra o marido. Nesses tempos, a autoridade do chefe de família em sua casa era absoluta, com o apoio do estado, pelo menos até certa época.
 

O convento, bela obra dos tempos coloniais, não resistiu às transformações que a cidade sofreu no início do século XX, sendo vendido à Light, que o demoliu em 1911. Nada se construiu então, tendo surgido nossa conhecida Cinelândia só no final dos anos 20, por obra de Francisco Serrador. Após mais de 160 anos de uma história ligada ao sagrado, iniciava-se a etapa profana do local, que também acabaria passando, como tudo mais, aliás.

Quarta, 16 Abril 2014 18:52

Caruso in Rio

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1903 foi um ano inesquecível para os amantes da ópera. Em setembro desse ano, o Rio de Janeiro se juntou ao seleto grupo de cidades a ter o privilégio histórico de ouvir o maior tenor de todos os tempos, Enrico Caruso, em excursão sul-americana. O cantor italiano se apresentou no melhor local de então, o Teatro Lírico, pois o conhecido Municipal ainda não existia.
 

O Lírico foi inaugurado em 1871, por obra de Bartolomeu Correia da Silva, onde antes era o seu Circo Olímpico. Localizava-se em um prolongamento do antigo Beco do Propósito, hoje trecho da Almirante Barroso, próximo à encosta do morro de Santo Antônio, desaparecido no começo dos anos 60, para ceder lugar aos monstrengos de concreto e vidro que povoam a atual avenida Chile. O teatro dispunha de excelentes instalações, com 1400 lugares na platéia, além de vários camarotes e da galeria. Com acústica excepcional, pelo seu palco passaram nomes de destaque, como Sarah Bernhardt, a mais famosa atriz do século XIX.

 

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Teatro Lírico, onde o famoso Caruso se apresentou em 1903. O prédio, de 1871,
ficava no Largo da Carioca, onde passa hoje a Avenida Chile, perto da rua
Senador Dantas.


Esta casa também teve seu nome registrado na história mundial da música clássica, por ser cenário de um acontecimento bastante significativo, ocorrido em 1886. Nesse ano, excursionava a orquestra do empresário Rossi, e, em São Paulo, o regente local Leopoldo Miguez se desentendeu com o primeiro-violino, abandonando a orquestra. Ao se apresentar no Rio, o empresário colocou o violinista da querela na regência, mas o público não aceitou, expulsando-o com suas vaias. Rossi, em desespero, o substitui pelo primeiro-violino da noite, e seu desempenho excepcional arranca aplausos entusiasmados. O público do Lírico acabava de testemunhar o nascimento de um dos maiores músicos dos séculos XIX e XX, o mundialmente famoso Arturo Toscaninni, em sua estréia improvisada aos 19 anos de idade.
 

Após a inauguração do Teatro Municipal, o Lírico entrou em processo de decadência, pois os principais espetáculos eram preferencialmente direcionados à nova casa. O grande teatro de outrora foi relegado a segundo plano, e, em 1934, demolido para a construção da futura sede da Caixa Econômica. Sua morte prematura, com pouco mais de 60 anos de existência, deixou uma lacuna irreparável, pois o cenário de fatos históricos simplesmente deixava de existir. Mais uma vítima do desprezo pelo passado, sobrevive junto com as vozes e imagens dos grandes artistas de outrora em nossa imaginação, substituta limitada da realidade.

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