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Sexta, 18 Julho 2014 15:48

O Velho Hospital

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O Largo da Carioca, um dos pontos mais conhecidos e históricos de toda cidade, sofreu grandes transformações ao longo do tempo, principalmente durante o último século, até chegar ao estado atual, em que, com exceção da igreja e convento de Santo Antônio, nada do passado subsiste.
 

No começo dos anos 1900, seu aspecto era completamente diferente. O principal marco, o chafariz da Carioca, estava presente e em funcionamento, assim como a Imprensa Nacional e outros prédios históricos, e, dentre estes, destacava-se o Hospital da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência, na esquina com a rua da Carioca.
 
 

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Hospital da Ordem Terceira da Penitência no Largo da Carioca. Construído no
século XVIII, foi demolido em 1906 durante as reformas promovidas pela
pefeitura na gestão Pereira Passos



O venerável prédio, inaugurado em 1763, foi um dos poucos locais a prestar algum tipo de assistência médica, coisa rara nos tempos coloniais. De formato quadrangular, de frente para o Largo, tinha três andares, sendo que os enfermos ocupavam o 2º e 3º pavimentos. O térreo tinha diversas lojas, cuja renda revertia para o funcionamento da instituição. Na parte interna, havia um jardim com várias estátuas, além de duas capelas. O hospital foi de grande valia quando dos grandes surtos epidêmicos, como cólera e febre amarela, que assolavam periodicamente a cidade desde meados do século XIX, abrindo suas portas e prestando assistência aos doentes.
 

Mas o hospital também teve outro uso, menos nobre mas não menos histórico, ao se tornar cárcere para alguns dos membros da Inconfidência Mineira, incluindo o próprio Tiradentes, por ordem do vice-rei Conde de Rezende, que procedia à prisão de todos envolvidos no movimento. Talvez o Conde temesse o contágio dos outros presos pelas idéias dos inconfidentes, optando assim por sua segregação nessa prisão improvisada.
 

A antiga construção passou por várias reformas, internas e externas, mas iria encontrar seu fim em 1906, quando a cidade sofreu grande remodelação. Com o pretexto de realinhar o Largo da Carioca com a recém-reformada rua Uruguaiana, demoliu-se o hospital, então com 150 anos de serviços e de história.
 

Como o Largo da Carioca hoje em dia é só um espaço aberto, não seria fora de propósito a construção no mesmo local de um prédio que abrigasse um museu  e promovesse eventos culturais. A fachada poderia reproduzir a do antigo hospital, para não agredir estéticamente a Igreja e Convento acima. Seria um serviço à cultura e à cidade, custando uma fração do que é desperdiçado em tantas obras faraônicas de valor duvidoso.

Quarta, 04 Junho 2014 17:07

A Imprensa Nacional

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Em 1856, um modesto rapaz finalmente conseguia seu primeiro emprego, de auxiliar de tipógrafo, em uma instituição que, apesar existir há poucas décadas, tinha destacada importância. O recém-empregado era ninguém menos que Machado de Assis, iniciando a vida profissional nas oficinas da Impressão Régia, antecessora da atual Imprensa Nacional.
 

A história deste órgão inicia com a fuga de D. João e a côrte portuguesa para o Brasil, em 1808, que fez uma encomenda de material tipográfico na Inglaterra ter o endereço de entrega mudado de Lisboa para o Rio de Janeiro. Antes desses acontecimentos, a Coroa portuguesa impediu qualquer tentativa de estabelecimento de uma imprensa em terras brasileiras, como quando o governador Gomes Freire instalou uma tipografia, destruída a seguir por ordens reais.

 

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O belo prédio da Imprensa Nacional no Largo da Carioca em estilo neomanuelino,
inaugurado em 1877 e demolido estúpidamente em 1938. Nesse local o
escritor Machado de Assis iniciou sua vida profissional.
 

A primeira sede da Impressão Régia localizou-se no pavimento térreo da casa do Conde da Barca, na rua do Passeio 44, transferindo-se a seguir para rua dos Barbonos (Evaristo da Veiga). Em 1831 estava na Academia de Artes, na av. Passos (demolida), depois na câmara dos deputados, na Misericórdia, para finalmente chegar em 1860 à rua da Guarda Velha (Treze de Maio), no atual Largo da Carioca. Depois da peregrinação por vários endereços alheios, uma sede própria, enfim.
 

O prédio, contudo, era bastante precário, e, em 1874, o Visconde do Rio Branco, Ministro da Fazenda, ordenou a construção de novas instalações no mesmo local. Em 1877 era inaugurado o edifício em estilo neomanuelino, projeto de Paula Freitas, tornando-se o mais recente adorno do antigo Largo da Carioca. Situado próximo ao Chafariz (Largo da Carioca nº1), e antes do Teatro Lírico, mais próximo à atual Almirante Barroso, e em frente ao Liceu de Artes e Ofícios, do outro lado da rua, o majestoso prédio foi durante muitas décadas uma referência no Largo.
 

Um violento incêndio em 1911 fez com que parte do equipamento se dispersasse em outras repartições, mas a sede continuou no mesmo local até 1938, quando foi demolida pelos geniais reformadores urbanos de então, que transformaram o Largo da Carioca em um grande terreno baldio, usado como estacionamento por décadas.
 

A Imprensa Nacional continuou suas atividades na av. Rodrigues Alves, transferindo-se a seguir para Brasília, em 1960. Mas o belo prédio no Largo da Carioca, que ainda poderia existir, deixou uma marca indelével na história visual do Rio antigo.

Quinta, 01 Maio 2014 18:52

O Convento da Ajuda

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A Cinelândia foi, durante muito tempo, o centro da vida noturna da cidade, especialmente no tempo da capital federal. Além de cinemas, o teatro de revista floresceu, lançando artistas de sucesso. Mas suas origens, diferentemente do que se imagina,  não foram nada mundanas, tendo na verdade uma motivação oposta à fama adquirida no século XX.
 

No ano de 1705, a coroa portuguesa finalmente concedia a autorização para a instalação do primeiro convento de freiras da cidade, a ser construído no mesmo local onde, desde o século XVI, existia a ermida de N.Sª da Ajuda, na atual Cinelândia. Era a vitória final da viúva Cecília Barbalho que, em 1678, decidiu recolher-se com suas três filhas e duas meninas. Como não havia nenhuma casa deste tipo na época, ofereceu seus bens a uma instituição que a criasse. A coroa tergiversava, pois preferia que as mulheres se casassem e tivessem filhos, povoando a colônia de tão escassos habitantes.

 

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Convento da Ajuda, construído em 1750 e demolido em 1911, ocupava a maior 
parte da área conhecida hoje como Cinelândia. Ao fundo, o Palácio do Monroe,
sede do antigo Senado Federal, já então construído.


A construção do convento, contudo, só iniciaria em 1745, sob o comando do Brigadeiro Alpoim. Cinco anos depois, em 1750, seria inaugurado com grandes festejos e a presença do governador Gomes Freire. Dedicado a N.Sª da Conceição da Ajuda, teve como fundadoras quatro freiras da Ordem de Santa Clara, enviadas de Salvador, junto com cinqüenta escravas. A área do convento incluía a igreja de N.Sª da Ajuda, que passou a receber os restos mortais da família real, depois da vinda da côrte.
 

Com o passar do tempo, as freiras da Ajuda ficaram conhecidas pelos seus dotes culinários, especialmente os doces, encomendados por ocasião dos mais diversos festejos, principalmente no século XIX. Mas o convento também teve seu lado sombrio, pois era usado como prisão para filhas desobedientes, que não aceitavam o noivo escolhido, e também para esposas que se rebelavam contra o marido. Nesses tempos, a autoridade do chefe de família em sua casa era absoluta, com o apoio do estado, pelo menos até certa época.
 

O convento, bela obra dos tempos coloniais, não resistiu às transformações que a cidade sofreu no início do século XX, sendo vendido à Light, que o demoliu em 1911. Nada se construiu então, tendo surgido nossa conhecida Cinelândia só no final dos anos 20, por obra de Francisco Serrador. Após mais de 160 anos de uma história ligada ao sagrado, iniciava-se a etapa profana do local, que também acabaria passando, como tudo mais, aliás.

Quarta, 16 Abril 2014 18:52

Caruso in Rio

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1903 foi um ano inesquecível para os amantes da ópera. Em setembro desse ano, o Rio de Janeiro se juntou ao seleto grupo de cidades a ter o privilégio histórico de ouvir o maior tenor de todos os tempos, Enrico Caruso, em excursão sul-americana. O cantor italiano se apresentou no melhor local de então, o Teatro Lírico, pois o conhecido Municipal ainda não existia.
 

O Lírico foi inaugurado em 1871, por obra de Bartolomeu Correia da Silva, onde antes era o seu Circo Olímpico. Localizava-se em um prolongamento do antigo Beco do Propósito, hoje trecho da Almirante Barroso, próximo à encosta do morro de Santo Antônio, desaparecido no começo dos anos 60, para ceder lugar aos monstrengos de concreto e vidro que povoam a atual avenida Chile. O teatro dispunha de excelentes instalações, com 1400 lugares na platéia, além de vários camarotes e da galeria. Com acústica excepcional, pelo seu palco passaram nomes de destaque, como Sarah Bernhardt, a mais famosa atriz do século XIX.

 

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Teatro Lírico, onde o famoso Caruso se apresentou em 1903. O prédio, de 1871,
ficava no Largo da Carioca, onde passa hoje a Avenida Chile, perto da rua
Senador Dantas.


Esta casa também teve seu nome registrado na história mundial da música clássica, por ser cenário de um acontecimento bastante significativo, ocorrido em 1886. Nesse ano, excursionava a orquestra do empresário Rossi, e, em São Paulo, o regente local Leopoldo Miguez se desentendeu com o primeiro-violino, abandonando a orquestra. Ao se apresentar no Rio, o empresário colocou o violinista da querela na regência, mas o público não aceitou, expulsando-o com suas vaias. Rossi, em desespero, o substitui pelo primeiro-violino da noite, e seu desempenho excepcional arranca aplausos entusiasmados. O público do Lírico acabava de testemunhar o nascimento de um dos maiores músicos dos séculos XIX e XX, o mundialmente famoso Arturo Toscaninni, em sua estréia improvisada aos 19 anos de idade.
 

Após a inauguração do Teatro Municipal, o Lírico entrou em processo de decadência, pois os principais espetáculos eram preferencialmente direcionados à nova casa. O grande teatro de outrora foi relegado a segundo plano, e, em 1934, demolido para a construção da futura sede da Caixa Econômica. Sua morte prematura, com pouco mais de 60 anos de existência, deixou uma lacuna irreparável, pois o cenário de fatos históricos simplesmente deixava de existir. Mais uma vítima do desprezo pelo passado, sobrevive junto com as vozes e imagens dos grandes artistas de outrora em nossa imaginação, substituta limitada da realidade.

Quarta, 26 Março 2014 18:25

O Castelo Invisível

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Dentre as diversas áreas que compõem o centro do Rio, uma das mais conhecidas e freqüentadas é aquela do Castelo. Geralmente associado com a avenida presidente Antonio Carlos, esse logradouro é uma idéia bastante vaga para a maioria das pessoas, que tem dificuldade em definir sua abrangência, além de desconhecer a própria origem do nome, pois nunca houve castelo algum no local. Ou teve?
 

A resposta nos remete à própria origem da cidade, quando Mem de Sá transferiu a Vila Velha, no morro Cara de Cão, para uma região mais central e defensável contra invasores, em 20 de janeiro de 1567. Escolheu-se um morro estrategicamente situado, denominado do Descanso ou São Januário, sendo o primeiro nome uma alusão à merecida paz após as inúmeras lutas travadas com os invasores franceses. Das primeiras construções destacam-se a igreja e colégio dos Jesuítas, a igreja de São Sebastião, onde foi sepultado Estácio de Sá, além da Câmara dos representantes e diversas casas de moradia.

 

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Morro do Castelo no início do século passado, a partir da Ilha das Cobras. Pode ser visto, bem
em frente, o Colégio e a Igreja dos Jesuítas.


Para a defesa dos ataques vindos tanto do mar quanto da terra, erigiu-se a primeira estrutura dedicada a este fim, o Forte São Sebastião, com suas peças de artilharia. Situava-se a mais de 40 metros de altura, em um ponto correspondente ao cruzamento das atuais avenidas Nilo Peçanha e Graça Aranha. Tinha à sua direita a entrada da barra e à esquerda o interior da baía de Guanabara. Era uma construção modesta, de grande fragilidade em caso de ataque direto.
 

Durante o século XVII, o forte não conheceu grandes melhorias, o que foi incentivado pela relativa tranqüilidade que a cidade desfrutava, sem ataques e maiores problemas. Tudo mudou depois das invasões francesas de 1710 e 1711, onde a precariedade e desorganização da defesa acabou deixando a cidade em maus lençóis, capitulando e tendo de pagar resgate para recobrar sua liberdade. Nos anos seguintes, o antigo baluarte cederia lugar a uma construção muito maior e mais sólida, que recebeu o nome de Forte de São Januário. Dentre as melhorias introduzidas, construiu-se na praça de armas uma torre para depósito da pólvora. Por sua semelhança com estruturas medievais, acabou recebendo a alcunha popular de castelo, o que acabou finalmente mudando o nome do morro de São Januário para aquele de Castelo.

 

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Ruínas da Fortaleza do Castelo, em momento próximo da destruição
final do morro, em 1922.


Ao longo do tempo, o forte se deteriorou, mas, persistia, testemunha heróica dos tempos da colonização. Mas não duraria muito tempo, pois, com as reformas feitas na cidade a partir do início do século XX, o destino do Morro do Castelo estava selado. Em 1922, este não mais existia, destruído na gestão do prefeito Carlos Sampaio, liberando uma enorme área à especulação imobiliária e interesses paralelos, aproximadamente entre as ruas São José, Av. Rio Branco, Santa Luzia e Dom Manuel. A cidade de Mem de Sá, onde o Rio nasceu, passava a existir  sómente em livros de história, sobrevivendo através de um nome que lembra um passado valoroso, e que não deve ser esquecido.

Quarta, 12 Março 2014 19:43

O Cais Pharoux

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Em meados dos anos 1810, desembarcava no Rio de Janeiro aquele que se tornaria um dos personagens mais conhecidos do século XIX, e uma das forças originais na transformação dos costumes locais pela introdução de uma cultura mais metropolitana.
 

Louis Pharoux, nascido em Marselha, lutou ao lado de Napoleão e decidiu exilar-se e reconstruir sua vida nos trópicos por razões políticas, segundo ele próprio. Após conhecer melhor nossa cidade, o que constatou só fez reforçar sua intenção original de construir um novo hotel, oferecendo serviços em nível compatível com os padrões europeus. Na verdade, a capital do reino era muito mal servida neste aspecto. Fora algumas exceções, as hospedagens eram pouco mais que pousadas pulguentas, e Pharoux transformaria radicalmente essa situação.
 

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Hotel e cais Pharoux  no Rio de Janeiro do século XIX, início de uma tradição
de hotelaria lembrada pelo nome do cais que persiste até os dias atuais


 Em 1816 surgia seu hotel, que se tornaria uma das mais conhecidas instituições do século XIX carioca. Localizava-se na rua Fresca (depois rua Clapp), esquina do Largo do Paço (Praça XV), com os fundos dando diretamente para o mar, onde havia um cais de desembarque, que acabou sendo óbviamente consagrado como Cais Pharoux. Além de boas acomodações, o público foi imediatamente conquistado pela boca, pois a cozinha era excelente, além de serem oferecidos vinhos franceses de qualidade, tornando o Pharoux um verdadeiro oásis de civilização e bom gosto em uma terra embrutecida e isolada do mundo por séculos de administração despótica.
 

Fora os serviços, o hotel incluiu em sua rica história um capítulo ligado aos primórdios da fotografia no Brasil e no mundo. Em 1839, chegava em viagem de instrução a corveta francesa L'Orientale, que funcionava como uma escola flutuante, trazendo vários professores, e, dentre eles, um padre chamado Combes. Quando estava hospedado no Pharoux, Combes fez demonstrações da recém-descoberta daguerreotipia, e tirou aquela que talvez tenha sido a primeira fotografia no Brasil, retratando o Largo do Paço e adjacências. Alguns anos depois, em 1843, se instalou no mesmo local o primeiro atelier deste gênero, iniciativa de dois ingleses.
 

Hoje em dia, apesar do mar ter recuado dezenas de metros por sucessivos aterros, e de obras como a Perimetral terem destruído e desfigurado a maior parte da região, o cais em frente ainda é chamado de Pharoux, homenageando o antigo hoteleiro que conquistou seu nome na história pela simpatia e bons serviços, há quase duzentos anos.

Quinta, 20 Fevereiro 2014 10:29

Na subida do morro

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Durante quase dois séculos, a cidade do Rio se desenvolveu em uma área delimitada por quatro morros de pouca elevação, cada um com uma contribuição específica na história carioca. Dois deles desapareceram, o do Castelo, em 1922, e o de Santo Antônio, no início dos anos 60. Dos restantes, o de São Bento e o da Conceição, é este último o menos conhecido, mas também foi palco de acontecimentos marcantes do passado.
 

Em setembro de 1710, acidade foi surpreendida pela invasão de Du Clerc, pirata francês, que, à frente de seus homens, tentou tomar o controle do local, com objetivo de saquear. Foi detido e derrotado pela reação popular, sendo aprisionado junto com sua gente. Um ano depois, em 1711, uma nova frota francesa, muito maior, comandada por Duguay-Trouin, surge na baía de Guanabara, os navios passam pelas defesas, e a Ilha das Cobras e outras posições importantes são tomadas. Um dos pontos de artilharia ficava no morro da Conceição, e caiu sem resistência. Enquanto isso, o governador Francisco de Castro Morais fugia covardemente, abandonando a cidade à própria sorte. Os invasores só se retiraram após pagamento de vultuoso resgate, antes que qualquer auxílio pudesse chegar.
 

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Sentiela colonial no Morro da Conceição: 350 anos de história
(foto Paulo Pacini)

 

Após o incidente, diversas medidas foram tomadas, dentre elas a construção de um forte no alto do Morro da Conceição. Iniciada em 1715, a fortaleza veio se juntar ao já existente Palácio Episcopal, residência do bispo, e à antiga capela dedicada a N.Sª da Conceição, erigida ainda no século XVII. Este antigo conjunto é, desde 1917, sede do Serviço Geográfico do Exército, encontrando-se preservado e em atividade.
 

Durante o vice-reinado do Conde da Cunha, em 1767, ocorre um episódio bizzaro. Após inspecionar as obras da fortaleza do Morro da Conceição, o Conde, descendo a ladeira a pé, encontra um abastado proprietário subindo a mesma em rica liteira, carregada por dois escravos. Seguindo orientação do Marquês de Pombal no combate à ostentação, resolve dar uma lição, mandando o proprietário descer e trocar de lugar com um dos escravos, carregando-o ladeira acima. Eram assim os duros tempos do despotismo do quero-e-mando.
 

O Morro da Conceição, talvez por estar relativamente afastado, foi poupado da destruição que atingiu outros locais antigos, e seu grande valor histórico o torna ponto de visitação obrigatório a todos que desejarem conhecer um pouco mais da história desta cidade.

Terça, 11 Fevereiro 2014 19:31

A Rua Da Cadeia

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É um fato básico da vida a presença do bem e do mal em todo universo, incluindo o âmago de cada um. Mesmo que tal possa ser uma ilusão criada pela mente humana e projetada sobre o mundo, a vida em comunidade exige o gerenciamento das ações consideradas maléficas, em nome da sobrevivência do grupo. Daí a criação do sistema judiciário e seus diversos tentáculos, como polícia, tribunais e prisões.
 

Não foi outra a situação enfrentada pelos colonizadores do Rio. Mesmo quando provisoriamente no Morro Cara de Cão, antes da criação do núcleo urbano, delitos eram cometidos e punidos, surpreendentemente em um grupo que deveria permanecer coeso para enfrentar um inimigo comum. Tendo sido expulsos os franceses, uma das primeiras providências foi a construção de uma cadeia na cidadela do Morro do Castelo, conjugada com a Câmara dos representantes. À medida que a várzea abaixo ia sendo conquistada, fizeram-se as primeiras gestões para erigir-se uma nova cadeia, que evitaria a subida ao Castelo. A autorização só ocorreu em 1639. O local escolhido localizava-se onde é hoje o Palácio Tiradentes, ao lado da Ermida de São José. As obras se arrastaram por quase um século, pela má qualidade da construção e modificações no projeto, só terminando em 1747.
 
 

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Rua da Assembléia no começo do século passado. Seu nome antigo era
Rua da Cadeia, por onde Tiradentes passou rumo ao patíbulo
no século XVIII.


A rua em frente, aberta durante o século XVII e dirigindo-se para o interior, acabou recebendo no nome de Rua da Cadeia, e continuava como caminho até a lagoa de Santo Antônio, no futuro Largo da Carioca. Com a drenagem da área, que levou décadas, a rua pôde ser plenamente ocupada, e seu trajeto foi definido em meados do século XVIII.
 

Chegando a Côrte, em 1808, o prédio foi requisitado, e os presos da Cadeia Velha transferidos para a prisão do Aljube, na rua do Acre. Em 1823, já com o Brasil independente, reunia-se no local a primeira Assembléia Constituinte, fato que acabou conferindo um novo significado para  o antigo prédio, como da Assembléia. Por efeito indutivo, a rua da Cadeia acabou se transformando em rua da Assembléia, mas só em 1853, nome que permaneceu até os dias de hoje.
 

A Cadeia e a rua da Assembléia encontram seu maior significado com a Conjuração Mineira e a prisão de Tiradentes. De lá saiu o mártir rumo ao patíbulo, e, após a demolição do antigo prédio em 1922, foi dado seu nome à então Câmara dos Deputados, em homenagem ao personagem central do episódio talvez o mais simbólico da história brasileira.

Segunda, 16 Dezembro 2013 17:15

Sucussarará!

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Nas primeiras décadas do século XVII, o Rio de Janeiro começava a se organizar na várzea, tendo como elemento central a rua Direita (1º de março), assim chamada por ligar o Convento do Carmo com o de São Bento, na época situado em um dos limites  da pequena cidade. A expansão urbana também se estendia ao interior, à custa de trabalhosa drenagem e aterro feito pelos colonos. À medida em que se avançava, novas vias eram criadas, tanto transversalmente à rua Direita, penetrando o interior, quanto paralelas, no intuito de facilitar o trânsito na nova aglomeração.
 

Uma das ruas abertas nessa época, bastante conhecida por quem frequenta o Centro, é a da Quitanda, nascida como Mateus de Freitas, provávelmente um proprietário local. A mudança do nome ocorreu aproximadamente em 1690, quando lá foi aberta a quitanda grande ou quitanda dos negros, espécie de feira. Sua localização foi consequência de uma das primeiras regulamentações sobre atividades comerciais, concentradas então em dois grupos principais: pescadores e quitandeiros. Aos primeiros foi estabelecido um limite que não podia ultrapassar a rua da Alfândega (chamada do Governador na época e neste trecho). Na esquina desta com a da Quitanda ficava a Quitanda do marisco, fato que contribuiu para perenização de seu nome como da Quitanda.

 

quitanda

Rua da Quitanda esquina com Alfândega, em foto de Malta de 1906. Esta rua
tradiconal do Centro do Rio presenciou vários acontecimentos históricos em
mais de quatro séculos de existência.


A antiga via, contudo, também foi conhecida por outros nomes, dependendo o trecho. Alguns deles, segundo Vieira Fazenda: Travessa da Castanheira, do Provedor da Fazenda, Rua Direita detrás, de Pedro Fernandes, de Alexandre de Castro, do Canto do Padre Matoso, Travessa do Oratório de N.Sª da Abadia, Rua do Oratório do Sargento-Mor e caminho para a chácara dos frades de São Bento.
 

Dentre estes, dois merecem destaque. O primeiro se liga à literatura brasileira, pois é citado na obra célebre de Manuel Antônio de Almeida, Memórias de um Sargento de Milícias. É o Canto dos Meirinhos, que ficava no trecho entre Ouvidor e Hospício (Buenos Aires), onde trabalhava Leonardo, pai do herói da obra.
 

O outro é uma anedota que virou nome de rua até as primeiras décadas do século XIX, e é uma verdadeira amostra do humor carioca dos tempos coloniais. Segundo o Almanaque do Rio de 1792 e 1794, citado por Brasil Gérson, no trecho da rua entre a do Ouvidor e do Cano (7 de setembro) morava um comerciante português atacado de hemorróidas, desconsolado após haver tentado todos os tratamentos disponíveis, sem muito sucesso. Era paciente de um médico inglês, que sempre procurava animá-lo, com as seguintes palavras em sotaque carregado, que acabaram caindo em ouvidos indiscretos e virando a chacota da cidade: "A senhorrr non deverrr desistirrr... Sucussarará!"

Quinta, 05 Setembro 2013 14:47

A Praça do Comércio

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Como capital do vice-reino do Brasil desde 1763, o Rio de Janeiro foi local de movimentação comercial expressiva, dentro, é claro, dos limites que a condição de colônia impunha ao país. A elevação de seu status, assumindo posição até então ocupada por Salvador, foi reflexo tanto da preocupação da coroa com os territórios do sul, fonte constante de conflitos com a Espanha, quanto da descoberta do ouro nas Minas Gerais, que, em seu caminho rumo à metrópole, deixava por aqui alguns benefícios.
 

A maioria dos comerciantes de porte se concentrava na Rua Direita, principalmente aqueles que vendiam escravos para fazendeiros. Mesmo assim, o número deles em 1800 não passava de 87, em sua maioria portugueses. A vinda da côrte em 1808, e consequente abertura dos portos, mudaria totalmente essa situação, e, em 1817 já havia 278 comerciantes brasileiros e portugueses, 105 ingleses e 8 franceses.
 

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Praça do Comércio na Rua Direita em meados do século XIX, em gravura
de Bertichem. O projeto  foi de autoria de Grandjean de Montigny.


Para favorecer a atividade, D. João fez construir uma Praça de Comércio, inaugurada em 1820 com projeto de Grandjean de Montigny, entre a Rua do Sabão (General Câmara – Av. Pres. Vargas) e a Alfândega. O local, contudo, não foi utilizado por muito tempo. Na noite de 21 de abril de 1821, uma assembléia de eleitores ali se reuniu aguardando o retorno de uma comitiva que foi à Quinta da Boa Vista pedir a D. João, que estava para retornar a Portugal, que confirmasse a vigência da constituição de 1812, assim como que permanecesse no país todo dinheiro que havia sido retirado do Tesouro. Às três da madrugada, uma tropa de soldados invade o recinto e faz fogo, matando e ferindo várias pessoas. Depois desse incidente, nenhum comerciante jamais voltou ao local, levando D. Pedro I, algum tempo depois, a incorporá-lo à Alfândega. Esse prédio faz parte hoje do Centro Cultural França-Brasil.
 

Anos mais tarde, em 1836, a associação inaugurava novo prédio, também com projeto de Grandjean de Montigny e situado na Rua Direita. Tinha dois pavimentos, com oito colunas dóricas na frente, que sustentavam um terraço ornado com grades de ferro. A Associação ali ficou até 1871, quando se demoliu o edifício para construir um maior e mais imponente. Previa-se a construção de três prédios. Um deles, na esquina da Rua do Rosário, seria entregue ao governo para servir como Correio Central e a Caixa de Amortização. No prédio do centro, ficariam  escritórios, e o prédio da esquina com a Rua do Sabão seria alugado a bancos.
 

Logo se verificou que não haveria espaço suficiente para os três prédios, e então foi erigido um só entre o do Correio e a Rua do Sabão, com projeto do arquiteto Bethencourt Silva. A obra iniciou em 1880 e terminou em 1906, e em 1922 o prédio foi transferido ao Banco do Brasil como parte de um acordo com a Associação Comercial. É hoje o Centro Cultural do Branco do Brasil.
 

O edifício que fica no local da antiga Praça do Comércio, esquina com Rua do Rosário, foi construído no final do século XIX pelo Banco do Brasil, mas foi logo ocupado pela Caixa de Amortização, seguida pelo Supremo Tribunal Federal, Su­perior Tribunal Eleitoral, sendo hoje o Centro Cultural da Justiça Eleitoral.
 

Os prédios em questão, dos mais notáveis na histórica Rua Direita (1º de março), são resultantes de antiga história, durante a qual os comerciantes, através de sua Associação, ajudaram a construir um novo país que emergia após uma longa noite de estagnação colonial.

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