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Quarta, 16 Abril 2014 18:52

Caruso in Rio

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1903 foi um ano inesquecível para os amantes da ópera. Em setembro desse ano, o Rio de Janeiro se juntou ao seleto grupo de cidades a ter o privilégio histórico de ouvir o maior tenor de todos os tempos, Enrico Caruso, em excursão sul-americana. O cantor italiano se apresentou no melhor local de então, o Teatro Lírico, pois o conhecido Municipal ainda não existia.
 

O Lírico foi inaugurado em 1871, por obra de Bartolomeu Correia da Silva, onde antes era o seu Circo Olímpico. Localizava-se em um prolongamento do antigo Beco do Propósito, hoje trecho da Almirante Barroso, próximo à encosta do morro de Santo Antônio, desaparecido no começo dos anos 60, para ceder lugar aos monstrengos de concreto e vidro que povoam a atual avenida Chile. O teatro dispunha de excelentes instalações, com 1400 lugares na platéia, além de vários camarotes e da galeria. Com acústica excepcional, pelo seu palco passaram nomes de destaque, como Sarah Bernhardt, a mais famosa atriz do século XIX.

 

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Teatro Lírico, onde o famoso Caruso se apresentou em 1903. O prédio, de 1871,
ficava no Largo da Carioca, onde passa hoje a Avenida Chile, perto da rua
Senador Dantas.


Esta casa também teve seu nome registrado na história mundial da música clássica, por ser cenário de um acontecimento bastante significativo, ocorrido em 1886. Nesse ano, excursionava a orquestra do empresário Rossi, e, em São Paulo, o regente local Leopoldo Miguez se desentendeu com o primeiro-violino, abandonando a orquestra. Ao se apresentar no Rio, o empresário colocou o violinista da querela na regência, mas o público não aceitou, expulsando-o com suas vaias. Rossi, em desespero, o substitui pelo primeiro-violino da noite, e seu desempenho excepcional arranca aplausos entusiasmados. O público do Lírico acabava de testemunhar o nascimento de um dos maiores músicos dos séculos XIX e XX, o mundialmente famoso Arturo Toscaninni, em sua estréia improvisada aos 19 anos de idade.
 

Após a inauguração do Teatro Municipal, o Lírico entrou em processo de decadência, pois os principais espetáculos eram preferencialmente direcionados à nova casa. O grande teatro de outrora foi relegado a segundo plano, e, em 1934, demolido para a construção da futura sede da Caixa Econômica. Sua morte prematura, com pouco mais de 60 anos de existência, deixou uma lacuna irreparável, pois o cenário de fatos históricos simplesmente deixava de existir. Mais uma vítima do desprezo pelo passado, sobrevive junto com as vozes e imagens dos grandes artistas de outrora em nossa imaginação, substituta limitada da realidade.

Quarta, 26 Março 2014 18:25

O Castelo Invisível

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Dentre as diversas áreas que compõem o centro do Rio, uma das mais conhecidas e freqüentadas é aquela do Castelo. Geralmente associado com a avenida presidente Antonio Carlos, esse logradouro é uma idéia bastante vaga para a maioria das pessoas, que tem dificuldade em definir sua abrangência, além de desconhecer a própria origem do nome, pois nunca houve castelo algum no local. Ou teve?
 

A resposta nos remete à própria origem da cidade, quando Mem de Sá transferiu a Vila Velha, no morro Cara de Cão, para uma região mais central e defensável contra invasores, em 20 de janeiro de 1567. Escolheu-se um morro estrategicamente situado, denominado do Descanso ou São Januário, sendo o primeiro nome uma alusão à merecida paz após as inúmeras lutas travadas com os invasores franceses. Das primeiras construções destacam-se a igreja e colégio dos Jesuítas, a igreja de São Sebastião, onde foi sepultado Estácio de Sá, além da Câmara dos representantes e diversas casas de moradia.

 

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Morro do Castelo no início do século passado, a partir da Ilha das Cobras. Pode ser visto, bem
em frente, o Colégio e a Igreja dos Jesuítas.


Para a defesa dos ataques vindos tanto do mar quanto da terra, erigiu-se a primeira estrutura dedicada a este fim, o Forte São Sebastião, com suas peças de artilharia. Situava-se a mais de 40 metros de altura, em um ponto correspondente ao cruzamento das atuais avenidas Nilo Peçanha e Graça Aranha. Tinha à sua direita a entrada da barra e à esquerda o interior da baía de Guanabara. Era uma construção modesta, de grande fragilidade em caso de ataque direto.
 

Durante o século XVII, o forte não conheceu grandes melhorias, o que foi incentivado pela relativa tranqüilidade que a cidade desfrutava, sem ataques e maiores problemas. Tudo mudou depois das invasões francesas de 1710 e 1711, onde a precariedade e desorganização da defesa acabou deixando a cidade em maus lençóis, capitulando e tendo de pagar resgate para recobrar sua liberdade. Nos anos seguintes, o antigo baluarte cederia lugar a uma construção muito maior e mais sólida, que recebeu o nome de Forte de São Januário. Dentre as melhorias introduzidas, construiu-se na praça de armas uma torre para depósito da pólvora. Por sua semelhança com estruturas medievais, acabou recebendo a alcunha popular de castelo, o que acabou finalmente mudando o nome do morro de São Januário para aquele de Castelo.

 

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Ruínas da Fortaleza do Castelo, em momento próximo da destruição
final do morro, em 1922.


Ao longo do tempo, o forte se deteriorou, mas, persistia, testemunha heróica dos tempos da colonização. Mas não duraria muito tempo, pois, com as reformas feitas na cidade a partir do início do século XX, o destino do Morro do Castelo estava selado. Em 1922, este não mais existia, destruído na gestão do prefeito Carlos Sampaio, liberando uma enorme área à especulação imobiliária e interesses paralelos, aproximadamente entre as ruas São José, Av. Rio Branco, Santa Luzia e Dom Manuel. A cidade de Mem de Sá, onde o Rio nasceu, passava a existir  sómente em livros de história, sobrevivendo através de um nome que lembra um passado valoroso, e que não deve ser esquecido.

Quarta, 12 Março 2014 19:43

O Cais Pharoux

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Em meados dos anos 1810, desembarcava no Rio de Janeiro aquele que se tornaria um dos personagens mais conhecidos do século XIX, e uma das forças originais na transformação dos costumes locais pela introdução de uma cultura mais metropolitana.
 

Louis Pharoux, nascido em Marselha, lutou ao lado de Napoleão e decidiu exilar-se e reconstruir sua vida nos trópicos por razões políticas, segundo ele próprio. Após conhecer melhor nossa cidade, o que constatou só fez reforçar sua intenção original de construir um novo hotel, oferecendo serviços em nível compatível com os padrões europeus. Na verdade, a capital do reino era muito mal servida neste aspecto. Fora algumas exceções, as hospedagens eram pouco mais que pousadas pulguentas, e Pharoux transformaria radicalmente essa situação.
 

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Hotel e cais Pharoux  no Rio de Janeiro do século XIX, início de uma tradição
de hotelaria lembrada pelo nome do cais que persiste até os dias atuais


 Em 1816 surgia seu hotel, que se tornaria uma das mais conhecidas instituições do século XIX carioca. Localizava-se na rua Fresca (depois rua Clapp), esquina do Largo do Paço (Praça XV), com os fundos dando diretamente para o mar, onde havia um cais de desembarque, que acabou sendo óbviamente consagrado como Cais Pharoux. Além de boas acomodações, o público foi imediatamente conquistado pela boca, pois a cozinha era excelente, além de serem oferecidos vinhos franceses de qualidade, tornando o Pharoux um verdadeiro oásis de civilização e bom gosto em uma terra embrutecida e isolada do mundo por séculos de administração despótica.
 

Fora os serviços, o hotel incluiu em sua rica história um capítulo ligado aos primórdios da fotografia no Brasil e no mundo. Em 1839, chegava em viagem de instrução a corveta francesa L'Orientale, que funcionava como uma escola flutuante, trazendo vários professores, e, dentre eles, um padre chamado Combes. Quando estava hospedado no Pharoux, Combes fez demonstrações da recém-descoberta daguerreotipia, e tirou aquela que talvez tenha sido a primeira fotografia no Brasil, retratando o Largo do Paço e adjacências. Alguns anos depois, em 1843, se instalou no mesmo local o primeiro atelier deste gênero, iniciativa de dois ingleses.
 

Hoje em dia, apesar do mar ter recuado dezenas de metros por sucessivos aterros, e de obras como a Perimetral terem destruído e desfigurado a maior parte da região, o cais em frente ainda é chamado de Pharoux, homenageando o antigo hoteleiro que conquistou seu nome na história pela simpatia e bons serviços, há quase duzentos anos.

Quinta, 20 Fevereiro 2014 10:29

Na subida do morro

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Durante quase dois séculos, a cidade do Rio se desenvolveu em uma área delimitada por quatro morros de pouca elevação, cada um com uma contribuição específica na história carioca. Dois deles desapareceram, o do Castelo, em 1922, e o de Santo Antônio, no início dos anos 60. Dos restantes, o de São Bento e o da Conceição, é este último o menos conhecido, mas também foi palco de acontecimentos marcantes do passado.
 

Em setembro de 1710, acidade foi surpreendida pela invasão de Du Clerc, pirata francês, que, à frente de seus homens, tentou tomar o controle do local, com objetivo de saquear. Foi detido e derrotado pela reação popular, sendo aprisionado junto com sua gente. Um ano depois, em 1711, uma nova frota francesa, muito maior, comandada por Duguay-Trouin, surge na baía de Guanabara, os navios passam pelas defesas, e a Ilha das Cobras e outras posições importantes são tomadas. Um dos pontos de artilharia ficava no morro da Conceição, e caiu sem resistência. Enquanto isso, o governador Francisco de Castro Morais fugia covardemente, abandonando a cidade à própria sorte. Os invasores só se retiraram após pagamento de vultuoso resgate, antes que qualquer auxílio pudesse chegar.
 

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Sentiela colonial no Morro da Conceição: 350 anos de história
(foto Paulo Pacini)

 

Após o incidente, diversas medidas foram tomadas, dentre elas a construção de um forte no alto do Morro da Conceição. Iniciada em 1715, a fortaleza veio se juntar ao já existente Palácio Episcopal, residência do bispo, e à antiga capela dedicada a N.Sª da Conceição, erigida ainda no século XVII. Este antigo conjunto é, desde 1917, sede do Serviço Geográfico do Exército, encontrando-se preservado e em atividade.
 

Durante o vice-reinado do Conde da Cunha, em 1767, ocorre um episódio bizzaro. Após inspecionar as obras da fortaleza do Morro da Conceição, o Conde, descendo a ladeira a pé, encontra um abastado proprietário subindo a mesma em rica liteira, carregada por dois escravos. Seguindo orientação do Marquês de Pombal no combate à ostentação, resolve dar uma lição, mandando o proprietário descer e trocar de lugar com um dos escravos, carregando-o ladeira acima. Eram assim os duros tempos do despotismo do quero-e-mando.
 

O Morro da Conceição, talvez por estar relativamente afastado, foi poupado da destruição que atingiu outros locais antigos, e seu grande valor histórico o torna ponto de visitação obrigatório a todos que desejarem conhecer um pouco mais da história desta cidade.

Terça, 11 Fevereiro 2014 19:31

A Rua Da Cadeia

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É um fato básico da vida a presença do bem e do mal em todo universo, incluindo o âmago de cada um. Mesmo que tal possa ser uma ilusão criada pela mente humana e projetada sobre o mundo, a vida em comunidade exige o gerenciamento das ações consideradas maléficas, em nome da sobrevivência do grupo. Daí a criação do sistema judiciário e seus diversos tentáculos, como polícia, tribunais e prisões.
 

Não foi outra a situação enfrentada pelos colonizadores do Rio. Mesmo quando provisoriamente no Morro Cara de Cão, antes da criação do núcleo urbano, delitos eram cometidos e punidos, surpreendentemente em um grupo que deveria permanecer coeso para enfrentar um inimigo comum. Tendo sido expulsos os franceses, uma das primeiras providências foi a construção de uma cadeia na cidadela do Morro do Castelo, conjugada com a Câmara dos representantes. À medida que a várzea abaixo ia sendo conquistada, fizeram-se as primeiras gestões para erigir-se uma nova cadeia, que evitaria a subida ao Castelo. A autorização só ocorreu em 1639. O local escolhido localizava-se onde é hoje o Palácio Tiradentes, ao lado da Ermida de São José. As obras se arrastaram por quase um século, pela má qualidade da construção e modificações no projeto, só terminando em 1747.
 
 

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Rua da Assembléia no começo do século passado. Seu nome antigo era
Rua da Cadeia, por onde Tiradentes passou rumo ao patíbulo
no século XVIII.


A rua em frente, aberta durante o século XVII e dirigindo-se para o interior, acabou recebendo no nome de Rua da Cadeia, e continuava como caminho até a lagoa de Santo Antônio, no futuro Largo da Carioca. Com a drenagem da área, que levou décadas, a rua pôde ser plenamente ocupada, e seu trajeto foi definido em meados do século XVIII.
 

Chegando a Côrte, em 1808, o prédio foi requisitado, e os presos da Cadeia Velha transferidos para a prisão do Aljube, na rua do Acre. Em 1823, já com o Brasil independente, reunia-se no local a primeira Assembléia Constituinte, fato que acabou conferindo um novo significado para  o antigo prédio, como da Assembléia. Por efeito indutivo, a rua da Cadeia acabou se transformando em rua da Assembléia, mas só em 1853, nome que permaneceu até os dias de hoje.
 

A Cadeia e a rua da Assembléia encontram seu maior significado com a Conjuração Mineira e a prisão de Tiradentes. De lá saiu o mártir rumo ao patíbulo, e, após a demolição do antigo prédio em 1922, foi dado seu nome à então Câmara dos Deputados, em homenagem ao personagem central do episódio talvez o mais simbólico da história brasileira.

Segunda, 16 Dezembro 2013 17:15

Sucussarará!

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Nas primeiras décadas do século XVII, o Rio de Janeiro começava a se organizar na várzea, tendo como elemento central a rua Direita (1º de março), assim chamada por ligar o Convento do Carmo com o de São Bento, na época situado em um dos limites  da pequena cidade. A expansão urbana também se estendia ao interior, à custa de trabalhosa drenagem e aterro feito pelos colonos. À medida em que se avançava, novas vias eram criadas, tanto transversalmente à rua Direita, penetrando o interior, quanto paralelas, no intuito de facilitar o trânsito na nova aglomeração.
 

Uma das ruas abertas nessa época, bastante conhecida por quem frequenta o Centro, é a da Quitanda, nascida como Mateus de Freitas, provávelmente um proprietário local. A mudança do nome ocorreu aproximadamente em 1690, quando lá foi aberta a quitanda grande ou quitanda dos negros, espécie de feira. Sua localização foi consequência de uma das primeiras regulamentações sobre atividades comerciais, concentradas então em dois grupos principais: pescadores e quitandeiros. Aos primeiros foi estabelecido um limite que não podia ultrapassar a rua da Alfândega (chamada do Governador na época e neste trecho). Na esquina desta com a da Quitanda ficava a Quitanda do marisco, fato que contribuiu para perenização de seu nome como da Quitanda.

 

quitanda

Rua da Quitanda esquina com Alfândega, em foto de Malta de 1906. Esta rua
tradiconal do Centro do Rio presenciou vários acontecimentos históricos em
mais de quatro séculos de existência.


A antiga via, contudo, também foi conhecida por outros nomes, dependendo o trecho. Alguns deles, segundo Vieira Fazenda: Travessa da Castanheira, do Provedor da Fazenda, Rua Direita detrás, de Pedro Fernandes, de Alexandre de Castro, do Canto do Padre Matoso, Travessa do Oratório de N.Sª da Abadia, Rua do Oratório do Sargento-Mor e caminho para a chácara dos frades de São Bento.
 

Dentre estes, dois merecem destaque. O primeiro se liga à literatura brasileira, pois é citado na obra célebre de Manuel Antônio de Almeida, Memórias de um Sargento de Milícias. É o Canto dos Meirinhos, que ficava no trecho entre Ouvidor e Hospício (Buenos Aires), onde trabalhava Leonardo, pai do herói da obra.
 

O outro é uma anedota que virou nome de rua até as primeiras décadas do século XIX, e é uma verdadeira amostra do humor carioca dos tempos coloniais. Segundo o Almanaque do Rio de 1792 e 1794, citado por Brasil Gérson, no trecho da rua entre a do Ouvidor e do Cano (7 de setembro) morava um comerciante português atacado de hemorróidas, desconsolado após haver tentado todos os tratamentos disponíveis, sem muito sucesso. Era paciente de um médico inglês, que sempre procurava animá-lo, com as seguintes palavras em sotaque carregado, que acabaram caindo em ouvidos indiscretos e virando a chacota da cidade: "A senhorrr non deverrr desistirrr... Sucussarará!"

Quinta, 05 Setembro 2013 14:47

A Praça do Comércio

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Como capital do vice-reino do Brasil desde 1763, o Rio de Janeiro foi local de movimentação comercial expressiva, dentro, é claro, dos limites que a condição de colônia impunha ao país. A elevação de seu status, assumindo posição até então ocupada por Salvador, foi reflexo tanto da preocupação da coroa com os territórios do sul, fonte constante de conflitos com a Espanha, quanto da descoberta do ouro nas Minas Gerais, que, em seu caminho rumo à metrópole, deixava por aqui alguns benefícios.
 

A maioria dos comerciantes de porte se concentrava na Rua Direita, principalmente aqueles que vendiam escravos para fazendeiros. Mesmo assim, o número deles em 1800 não passava de 87, em sua maioria portugueses. A vinda da côrte em 1808, e consequente abertura dos portos, mudaria totalmente essa situação, e, em 1817 já havia 278 comerciantes brasileiros e portugueses, 105 ingleses e 8 franceses.
 

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Praça do Comércio na Rua Direita em meados do século XIX, em gravura
de Bertichem. O projeto  foi de autoria de Grandjean de Montigny.


Para favorecer a atividade, D. João fez construir uma Praça de Comércio, inaugurada em 1820 com projeto de Grandjean de Montigny, entre a Rua do Sabão (General Câmara – Av. Pres. Vargas) e a Alfândega. O local, contudo, não foi utilizado por muito tempo. Na noite de 21 de abril de 1821, uma assembléia de eleitores ali se reuniu aguardando o retorno de uma comitiva que foi à Quinta da Boa Vista pedir a D. João, que estava para retornar a Portugal, que confirmasse a vigência da constituição de 1812, assim como que permanecesse no país todo dinheiro que havia sido retirado do Tesouro. Às três da madrugada, uma tropa de soldados invade o recinto e faz fogo, matando e ferindo várias pessoas. Depois desse incidente, nenhum comerciante jamais voltou ao local, levando D. Pedro I, algum tempo depois, a incorporá-lo à Alfândega. Esse prédio faz parte hoje do Centro Cultural França-Brasil.
 

Anos mais tarde, em 1836, a associação inaugurava novo prédio, também com projeto de Grandjean de Montigny e situado na Rua Direita. Tinha dois pavimentos, com oito colunas dóricas na frente, que sustentavam um terraço ornado com grades de ferro. A Associação ali ficou até 1871, quando se demoliu o edifício para construir um maior e mais imponente. Previa-se a construção de três prédios. Um deles, na esquina da Rua do Rosário, seria entregue ao governo para servir como Correio Central e a Caixa de Amortização. No prédio do centro, ficariam  escritórios, e o prédio da esquina com a Rua do Sabão seria alugado a bancos.
 

Logo se verificou que não haveria espaço suficiente para os três prédios, e então foi erigido um só entre o do Correio e a Rua do Sabão, com projeto do arquiteto Bethencourt Silva. A obra iniciou em 1880 e terminou em 1906, e em 1922 o prédio foi transferido ao Banco do Brasil como parte de um acordo com a Associação Comercial. É hoje o Centro Cultural do Branco do Brasil.
 

O edifício que fica no local da antiga Praça do Comércio, esquina com Rua do Rosário, foi construído no final do século XIX pelo Banco do Brasil, mas foi logo ocupado pela Caixa de Amortização, seguida pelo Supremo Tribunal Federal, Su­perior Tribunal Eleitoral, sendo hoje o Centro Cultural da Justiça Eleitoral.
 

Os prédios em questão, dos mais notáveis na histórica Rua Direita (1º de março), são resultantes de antiga história, durante a qual os comerciantes, através de sua Associação, ajudaram a construir um novo país que emergia após uma longa noite de estagnação colonial.

Quinta, 29 Agosto 2013 10:55

A Casa dos Pássaros

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O vice-rei D. Luís de Vasconcellos, cujo governo se estendeu de 1779 a 1790, é mais conhecido pela construção do Passeio Público, obra notável que perdura até hoje, projetada e executada por seu amigo e artista, Mestre Valentim. Além dessa iniciativa, o governante legou à cidade diversas realizações outras, como o calçamento do Largo do Paço (Praça XV) e a reforma de seu cais com a transferência e remodelação do chafariz, construído originalmente por Gomes Freire e situado onde está atualmente a estátua do General Osório.
 

Uma obra sua menos conhecida, no domínio cultural e científico, foi a criação da Casa dos Pássaros, nome pelo qual ficou conhecido o embrião do primeiro museu em terras brasileiras, origem do futuro Museu Nacional. Erigido na região conhecida como Campo de São Domingos, era um prédio modesto, progressivamente ocupado com uma coleção de aves empalhadas, de autoria do taxidermista Francisco Xavier Cardoso, chamado de Xavier dos Pássaros.

 

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Prédio do Tesouro na Rua do Sacramento, no início do século passado. Reparem
que a rua termina na Senhor dos Passos, o que mudaria após sua ligação com
a Av. Marechal Floriano, alguns anos depois. O prédio da foto, junto com a
Academia de Belas Artes, seria  demolido no final dos anos 1930.


À volta da Casa dos Pássaros haviam poucos e esparsos prédios, pois a região ainda estava sendo ocupada. A rua onde ficava o prédio ficou conhecida como Rua da Lampadosa, em referência à igreja de mesmo nome construída a partir de 1747. A via só seria demarcada em definitivo em 1791. No local também ficava a fôrca, onde provávelmente Tiradentes foi executado.
 

A Casa dos Pássaros seria atingida pela vinda da côrte portuguesa em 1808, pois a ocupação do Paço dos Governadores na Praça XV e prédios adjacentes pela família real causou o deslocamento da Casa da Moeda para o prédio da Rua da Lampadosa, e as coleções de aves acabaram sendo transferidas para um imóvel adquirido a João Rodrigues Pereira de Almeida pelo governo no Campo de Santana, esquina com a Rua dos Ciganos (Constituição). Foi a partir da instalação da coleção nesse prédio que se originou o Museu Nacional.
 

O edifício da Rua da Lampasosa estava agora dedicado ao dinheiro. Fez-se uma reforma em 1810, com a finalidade de abrigar o Real Erário, e também as oficinas de cunhagem de moedas, que para lá se transferiram em 1814. A chegada da Missão Artística Francesa em 1816 resultaria na ocupação, anos depois, de um prédio anexo ao do Tesouro (Erário), onde seria construída a Academia Imperial de Belas Artes, com projeto de Grandjean de Montigny.
 

Em 1868, a Casa da Moeda saía do Tesouro para sua nova casa própria no Campo de Santana, o belo palácio hoje pertencente ao Arquivo Nacional. O antigo prédio da Rua da Lampadosa, chamada então de Rua do Sacramento (Avenida Passos), após a construção da igreja de mesmo nome em 1820, passou por uma reconstrução de 1869 a 1875, passando a ostentar uma fachada neoclássica.
 

No final dos anos 30 do século passado, durante o frenesi de destruição comandado pela abertura da Avenida Pres. Vargas, o prédio do Tesouro, assim como o da Academia de Belas Artes de Montigny foram estúpidamente demolidos, e desde então o local é ocupado por um magnífico terreno baldio transformado em estacionamento. Essa construção, que poderia ter sido preservada, possuía importância histórica e cultural, mas acabou se tornando mais uma vítima de desmandos de governantes corruptos e ignorantes.

Quarta, 07 Agosto 2013 10:54

O Beco do Fisco

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Durante muito tempo, desde seu estabelecimento no Morro do Castelo em 1567, a cidade do Rio de Janeiro, após se expandir para a várzea próxima ao morro, teve como limite interior uma vala que escoava as águas da lagoa de Santo Antônio, situada no atual Largo da Carioca.
 

Aberta em 1641, acompanhava um caminho de escoamento já existente, extravasando as águas da lagoa quando das enchentes. A obra foi uma exigência feita pelos religiosos franciscanos ao concordarem em ocupar o morro que receberia seu nome — Santo Antônio — e construírem seu convento e igreja.
 

No início do século XVIII, várias ruas que partiam do litoral, na Rua Direita (1º de março) já alcançavam a Rua dos Ourives (Miguel Couto), chamada então de Caminho da Conceição para o Parto, por ligar a Ladeira da Conceição, no morro de mesmo nome, à Igreja do Parto, no encontro das ruas da Ajuda e São José. Mais adiante ainda estavam os alagados da Vala, que foram drenados algumas décadas após.

 

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Aspecto do Beco do Fisco no início do século passado, em sua esquina com
a Rua do Hospício (Buenos Aires). Podem ser vistos os trilhos dos bondes
da Companhia de Carris Urbanos. No lugar do beco está hoje
o Mercado das Flores.

A partir desse momento, a vala originou mais uma via da cidade, construída ao lado do escoadouro, chamada, a propósito, de Rua da Vala (Uruguaiana). A ela se ligaram as várias outras do litoral, como Ouvidor, Rosário, do Hospício (Buenos Aires), Caminho de Capueruçu (Alfândega), etc.
 

No trecho final das ruas do Rosário e Hospício, antes da Vala, foi aberta naquela mesma época uma passagem as ligando, na qual foram construídas algumas casas de cada lado. A via não possuía originalmente nenhum nome, ou ele não chegou até o presente, mas, no começo do século XIX, já era conhecido como Beco do Fisco. O nome foi dado por conta de uma repartição do Senado da Câmara (órgão de cunho municipal) que tinha como função de arrecadar tributos. Ficava em um prédio na esquina com a Rua do Hospício.
 

Conta o historiador Vieira Fazenda que existiam no local pés de jabuticaba, que muitos iam colher. Em uma época, também encontravam-se oficinas, onde trabalhavam ruidosamente vários caixoteiros, em seu afazer diário.
 

O beco foi demolido nos por volta de 1910, e em seu lugar foi construída uma praça destinada à venda as flores, que acabou chamada de Gonçalves Dias, e, após a morte de Olavo Bilac, em 1918, do nome deste. Durante a administração de Carlos Sampaio, alguns anos após, foi construído um mercado para flores, e, no governo de Carlos Lacerda, nos anos 60, o atual e conhecido Mercado das Flores, local agradável embora com pouca visibilidade, e a ocultar antigas origens.

Quarta, 24 Julho 2013 11:32

O Mercado Municipal

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Dentre os locais mais movimentados do Rio de Janeiro dos primeiros tempos, podemos sem dúvida incluir a Praia D. Manuel, conhecida anteriormente como Praia e Porto dos Padres da Companhia por conta do colégio dos Jesuítas no Morro do Castelo, responsável pela maior parte da movimentação de pessoas e mercadorias que ali desembarcavam. O nome D. Manuel foi uma homenagem a D. Manuel Lobo, governador que chegou em 1679 e morreu no ano seguinte em uma prisão espanhola, após ter ido lutar no sul pela colônia do Sacramento (Uruguai).
 

No século XIX, depois da vinda da côrte portuguesa, foi onde Louis Pharoux, escolheu para instalar seu conhecido hotel e restaurante, o qual era servido por um cais cujo nome persiste até hoje: Cais Pharoux.
 

Em 1873, a empresa do engenheiro André Rebouças recebe uma concessão para a construção de um novo cais entre o Cais Pharoux e a Ponta do Calabouço, mas a obra acabou sendo mesmo feita pelo governo imperial.
 

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Fachada lateral do Mercado Municipal voltada para o mar. A torre da esquerda
é o atual restaurante Albamar.


No final desse mesmo século, já instalada a República, surgiu a necessidade por um novo mercado naquela região, pois o antigo, situado na Praça XV onde é hoje a Bolsa de Valores, projetado por Grandjean de Montigny, já não atendia à demanda de uma população que muito havia crescido.
 

Após inúmeras marchas e contramarchas, que adiaram as obras por vários anos, o novo mercado é inaugurado em 14 de dezembro de 1907, com a presença do presidente Afonso Pena e do general Sousa Aguiar, prefeito do Distrito Federal, além de outras personalidades.

O edifício, de forma quadrada e com 150 metros de lado, ocupava uma área de 22.500 m2, tinha quatro torres nos cantos e uma torre central, e quatro portões monumentais com 14 metros de altura. O material do mercado, feito de ferro, veio da Bélgica, sendo a montagem supervisionada por representantes do fabricante. No interior da construção haviam 16 ruas, com um total de 1136 compartimentos para as lojas. Era vendido todo tipo de mercadoria, com destaque para gêneros alimentícios como carne, peixe, frutas, verduras, etc.
 

O novo mercado tornou-se rápidamente mais um símbolo da cidade, para o que contribuiu sua grande visibilidade, especialmente para quem chegava pelo mar. Foi cenário no filme "Orfeu Negro", de Marcel Camus, realizado em 1959, que é provávelmente um dos raros registros a cores do antigo mercado.

 

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Uma das rua internas do Mercado, mostrando o intenso movimento. Voltado para
a venda de gêneros alimentícios, era o principal ponto desse comércio no Rio.


Mas o belo prédio sofreu morte precoce, não completando nem 60 anos de existência, sendo destruído no final dos anos 50 em nome da construção da Av. Perimetral, que na verdade não pedia sua demolição completa, só sendo necessário remover uma parte. Mas a tradicional vontade de destruir prevaleceu, embalada por uma espécie de demência daquela época que procurava justificar qualquer ato estúpido como esse como um progresso na direção de um futuro automobilístico. Essa tendência, embora enfraquecida, ainda está presente hoje em dia, e, junto com a especulação imobiliária, com certeza ainda irá causar muitos danos ao patrimônio histórico e coletivo da cidade.
 

O que resta do antigo Mercado Municipal é a torre do restaurante Albamar, obra que a maioria das pessoas não consegue situar no contexto do Cais Pharoux atual. A demolição da Perimetral, livrando a Praça XV e arredores de uma das piores e mais destruidoras obras já feitas no centro do Rio, é sem dúvida sinal de alguma sanidade nos administradores atuais, ao resgatar um pouco do prejuízo gerado pelas atitudes nefastas de seus colegas do passado. 

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